Cristina Bahiense

Reynaldo Roels Jr.

Exposição Individual  [Centro Cultural Candido Mendes]

A pintura de Cristina Bahiense, mostrada na Cândido Mendes (Rio), vem apresentando algumas transformações significativas, tanto no que diz respeito à concepção do espaço pictórico, quanto no que toca ao próprio tratamento do material. Concentrada anteriormente na pesquisa da forma e da textura,limitada a manipular um espectro cromático pessoal mas deliberadamente limitado, as oito telas de sua última exposição deixam de lado aqueles elementos e ampliam o campo de ação da artista, em direçãoa um conceito pictórico menos rígido. E isto a despeito dos elementos formais relativamente ainda mais restritos do que antes: Cristina privilegia agora as faixas verticais, ao contrário das diagonais (tendências) que definiam formas orgânicas dos trabalhos mais antigos, As faixas, por sua vez assumem duas limitações prévias: a amplitude do gesto de seu braço, e a largura do pincel. E, no lugar das combinações harmônicas de cor, onde as áreas diferentes se equilibram de maneira quase simétrica, a atenção da artista se dirige preferencialmente para dominantes que cobrem toda a tela.

Quase que como uma compressão, onde as distâncias entre os matizes de uma mesma cor estão suficientemente próximos para permitir o aparecimento da dominante.

A passagem observada na pintura de Cristina evidencia não somente uma mudança de direcionamento do trabalho, mas ainda um amadurecimento maior da artista, onde o rigor da pesquisa é amenizado, por assimdizer, pela liberdade de tratamento de quem já tem familiaridade com o meio. A concentração, neste caso, é uma decorrência do aprofundamento mas, por isso mesmo, permite desvios reflexivos mais descontraídos. Em vez da manutenção, a todo custo, do espaço bidimensional estrito, enfatizando a superfície do suporte, Cristina trabalha dentro de um “espaço raso” onde a superficialidade pode mesmo emergir eventualmente, mas não limita a abrangência da pintura. Ela se desenvolve, visualmente, com toda a liberdade dentro dos limites fixados, e o olho é, sem esforço ou imposição externa, levado a compreender o raciocínio em todos os seus desdobramentos, sem perder o fio condutor.

É curioso ainda constatar o quanto a concisão e a concentração da linguagem pictórica de Cristina se faz a despeito da aparente ausência de cálculo: o gesto de pintar é explicitamente livre, e o material é deixado ao seu comportamento “natural”. A tinta escorre, livre, pelo suporte (mas sem excessos maneiristas), e nenhum esforço é feito para que as faixas revelem a exatidão da reta. Mais ainda, elas são obviamente realizadas em uma posição diferente daquela em que o olho as vê: Cristina trabalha na horizontal, as telas são vistas na vertical, o que ajuda a eliminar adicionalmente qualquer efeito do cálculo que possa escapar à intenção da artista.

Em seu conjunto, o que esta última exposição apresentada pela artista revela é o crescimento de um raciocínio, sem grandes lances teatrais mas, ao contrário, discreto e seguro, sem a pressa e a ansiedadeque aflige outros bons artistas. E um crescimento que exige também, pelo lado do espectador, a sua contrapartida: são pinturas que precisam ser apreciadas igualmente sem a pressa, com interioridade e calma,para revelarem todo o seu potencial discreto e contido.

Reynaldo Roels Jr.