Cristina Bahiense

Guilherme Bueno

Cristina Bahiense - INVERTED SIGNALS  [CCJF, 2011]

Tema central do primeiro debate sobre a passagem de uma condição moderna para outra contemporânea foi o cancelamento daquilo conhecido como a especialidade do “campo de competência” de um meio, ou seja, sua capacidade de se autodefinir por sua constituição material. Hoje sabemos muito bem que a fronteira acima mencionada é bem mais difusa do que um enunciado como esse. Contudo, ele não deixa de guardar seu interesse por ter fomentado uma seara decisiva de obras dedicadas a fundar um novo modelo de espaço plástico capaz de solicitar o espectador por outros caminhos nos quais a percepção não se dava a partir de um entendimento mecanicista do corpo (isto é, grosseiramente falando: a pintura é para os olhos, a escultura e a arquitetura para o corpo, a música para os ouvidos e daí por diante).

Qual a razão de falar disso frente aos trabalhos de Cristina Bahiense expostos no Centro Cultural Justiça Federal? Logo de entrada há algo a ser enfatizado: as obras da artista discutem a possibilidade de uma tradição contemporânea. Eles partem de um modelo de espaço que poderíamos descrever como integralmente contemporâneo, ou, dito de outro modo, não mais inscrito no debate moderno/pós-moderno como um fenômeno do presente e guiado pela polêmica viva, mas, caso ele se manifeste (e se manifesta), na sua existência hoje como um fato histórico consolidado. Por conta disso, Cristina desenvolve o seguinte problema: submeter a pintura/desenho ou a escultura a espaços e meios que não lhe eram próprios, fazendo, contudo, com que elas não abram mão de se enunciar como tais, ao invés de se proclamarem como uma linguagem outra. Em si, não há qualidade nem erro prévio algum em decidir-se por insistir ou inventar uma “categoria”; o que é importante é notar como essa decisão também se impõe como uma ação formal, cujo caráter não é de ordem plástica (formalista, por exemplo), mas de esquadrinhar o campo de reflexões de onde os trabalhos saem – uma discussão sobre a ideia da pintura expandida, por exemplo; ou ainda de como ela se comporta nesse modelo de espaço surgido mediante o seu questionamento.

Tais situações são patentes nesses trabalhos: se logo no primeiro olhar se constata a saída do desenho do ema-ranhado de linhas do plano rumo ao espaço (e, falando por meio de uma metáfora, seria como uma espécie de dripping congelado no intervalo entre a queda da tinta do balde e sua acomodação na superfície da tela), a artista “achata” esse volume novamente, ao comprimi-lo virtualmente contra o plano com as grades de metal escultóricas que ora o seguem em paralelo, ora o secionam ortogonalmente. Num segundo caso, há o procedimento oposto: as fitas torcidas que a artista faz com folha de alumínio, criando esculturas, se “instalam” como imagem fotográfica, existem como esculturas bidimensionais, cuja volumetria se dá no deslocamento do ponto de vista da câmera. Uma transformação instigante, posto que confronta espacialidade literal (aquela do suporte propriamente dito) e imagética (a do objeto fotografado e que só existe como tal). 

Reunidos em uma mesma sala, os dois conjuntos de trabalhos determinam, por conta das inversões manobradas, uma peculiar tensão, ao – com o perdão do neologismo – “desliterarizarem” tanto a natureza espacial em si de cada uma dessas linguagens quanto a do espaço expositivo propriamente dito, uma vez que suas coordenadas prévias, sua lógica assentada, é submetida a uma outra (des)ordem das coisas, como se, repentinamente, o espaço espelhado suspendesse suas coordenadas e se tornasse omsem is ed megami.

Guilherme Bueno